segunda-feira, 2 de novembro de 2009

balões coloridos...

E ela estava caminhando sem rumo. Andava a esmo. O apartamento lhe parecia opressor. Sentia-se comprimida, compactada. Mirava despretensiosamente suas coisas, pertences ao redor. Queria distrair-se. Mas nada captava sua atenção. Buscava cores, sensações, lembranças. Aquilo que havia perdido. E se a angústia a consumisse? Aquele gosto de vazio em sua boca a enjoava. Estava presa em sua rotina. E um marasmo aterrador a consumia dia após dia. Sentia-se presa em correntes invisíveis: a censura, a crítica, dogmas e preconceitos. A sua volta somente borrões. Imagens distorcidas de um mundo sempre igual. Sabia que não era assim, que as coisas tinham de ser diferentes. Mas enxergava a vida monocromática. Tudo cinza. Tudo cor de nada. Percebia movimentos, as coisas se moviam ao seu redor. Era a vida. Acontecendo. O mundo não parava de rodar. Mas as cores, as cores tinham sumido. Procurava as nuances, precisava encontrar. Queria sentir que ainda estava viva. Queria ver novamente o amarelo. Enxergar realmente o girassol que estava ao lado de sua mesa no escritório. Azul. O próprio céu agora não tinha cor. O mar se fingia de morto, escondia-se atrás da palidez descolorada. Ainda lembrava do laranja mamão papaia tão vivo, que dava pra sentir o gosto da comida. Última vez que vivera. Que sentira. Que fora humana. O fluxo de pensamentos que se agitava em sua mente era insano. Fazia com que o enjôo aumentasse, vertiginosamente. E o incômodo era cada vez maior. A busca parecia-lhe inútil. Encostou-se num canto. Estava no chão? Não distinguia a textura da madeira nobre ou do cimento mofado, cor de tabaco ou marfim acinzentado. Não sabia dizer se era frio ou quente, cor de gelo ou do ruivo dos cabelos da vizinha do terceiro andar. A náusea a impedia de pensar, talvez até de respirar. Agia por instinto. Ar. Precisava de ar. Aquilo tudo a sufocava. Sentia um aperto no peito, como se a empurrassem contra a parede. A janela. Via a janela. Aproximou-se titubeante do parapeito. Olhou para frente. Coisa que não fazia há muito tempo. Viu ao longe pequenos pontos coloridos. Coloridos. Eram balões? Sim. Um homem segurando balões. Ela o encarava perplexa diante da explosão de cores que a absorviam. Ainda não respirava. Rosa. O rosa bebê que seu pai pintara na porta de seu quarto na infância. Uma lufada de ar penetrou violentamente os pulmões vazios. Verde. O “verde que te quero verde” do seu vestido favorito. Aquele que usara na formatura da faculdade. O oxigênio percorreu rapidamente seu corpo. Olhou para o céu. Sentiu que quase podia tocar o céu de tão palpável. Púrpuro, azul arroxeado, lilás cianótico. Exatamente aquele dos fins de tarde de sua adolescência. Podia sentir célula por célula sendo revitalizada. Olhava admirada. Cada nuance. Cada tom. Sentia. A vida se fazia sentir naquele momento. Lembrou de cada detalhe de sua existência. Viver. Era o que desejava. E porque não faze-lo? Olhou mais uma vez o homem que carregava os balões. E viu. Ele sorria. Sorria porque carregava balões. Sorria enquanto soltava os balões. E estes subiram. Em espirais multicoloridas em um céu policromático. E ela ficou ali. Admirando. Aproveitando cada momento daquele instante. Sentia. E isso bastava.


Texto postado originalmente no blog: http://www.audiovisualverde.blogspot.com/

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

na contramão..

Hoje vi de perto a morte pela primeira vez. Ela estava ali, rondando. Encarei-a de frente. E senti medo. Não consegui olhar da segunda vez. Fiquei ali parada, vendo o homem arremessado ao chão. Eu gritei. Juro que gritei. Ali mesmo, dentro do ônibus em que eu estava. Eu que raramente grito, gritei em público como uma louca. Gritei porque senti medo. Medo do inesperado. E de repente, aquele senhor sentado ao lado no ônibus -aquele que tinha tomado o ônibus no mesmo ponto em que eu - estava ali estirado no asfalto. Tinha voado. Não morreu. Espero. Mas a dor que meu peito sentiu naquele instante foi dilacerante. Minha respiração ficou ofegante e o coração quase pulava pra fora, com vontade de correr ao homem e lhe oferecer um tanto de vida. Atormentei-me, a viagem não foi a mesma de sempre. Ainda estou atormentada.A simples menção ao senhor atropelado faz a sensação de efemeridade e insegurança voltar. Como pode tudo acabar tão de repente? Como pode se desfazer sem aviso prévio? Na realidade, não sei se ele findou-se. Mas poderia ter findado. E este simples fato me assombra ainda agora. E se tivesse ido? O que eu faria? Teria eu apenas gritado? Teria ido socorre-lo? Teria me desmantelado em lágrimas? Teria eu reagido? A dor é cortante, ainda me machuca. E a cena persiste em mim: tropeçou no céu como se ouvisse música. E flutuou no ar como se fosse sábado. E se acabou no chão feito um pacote tímido. Agonizou no meio do passeio náufrago.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

sucesso

Pasta em cima da mesa. Chave ao lado do telefone. Escada. Subir. Havia feito de tudo para subir. Havia conseguido? Sim. Camisa no cabideiro. Sapatos embaixo da cama. Os filhos já não mais o respeitavam. A mulher se afastava cada vez mais. Escada. Descer. Fundo do poço. Depressão. No emprego parecia invisível. O chefe não olhava mais para ele. Era como se não existisse. Se passassem na rua por cima dele, ninguém iria notar. Ele não notaria. Banheiro. Escova de dente. Espelho. Mirava sua face na tela. Era a sua face ali? Não reconhecia mais aquele homem. Torneira. Água escorrendo. Dúvidas. Escorrendo. Não sabia mais quem era. Interesses. Gostos. Anseios. Desejos. Aspirações. Sonhos. Quais eram? Não pensava nisso há tanto tempo. Pensar. Como era doloroso pensar. Dor de cabeça. Aspirina. Estava pronto. Escada. Subir. Sentia que, lá no fundo, preferia o marasmo. A apatia. Isso ele poderia suportar. Podia viver assim pelo resto da vida. Deitar. Seria medíocre. Quem se importaria? Dormir. Não sonhar.

domingo, 11 de outubro de 2009

Escrever...

"Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando..."

Clarice Lispector

terça-feira, 6 de outubro de 2009

morangos mofados..

E se me vem à mente a mesma história, o mesmo poema, a mesma rima? E se as palavras que agora pairam em minha mente formam discursos já aqui reproduzidos? Li Vinicius, ouvi Chico, li Clarice, ouvi Beatles, li Caio Fernando Abreu. Nada me inspira. Queria ter “morangos mofados” para vomitar no papel. Mas não tenho. Sigo experimentando um, digamos, bloqueio criativo. Talvez eu esteja racional demais. Talvez eu mesma esteja impedindo minhas reflexões de virem à tona. Enfim, aguardo ansiosamente o familiar fluxo de palavras, fonte de minhas idéias, para poder passa-las ao papel.

domingo, 27 de setembro de 2009

Clarice e a paz

Clarice andava em meio ao trânsito infernal de pessoas que circulavam na calçada. Ia imersa em reflexões, que pouco a pouco a tomavam por inteiro. Paz! Como ela a desejava. Três letras. Sonoras. Expressivas. Tão importantes. Caminhava apressada, ansiava pela quietude de sua casa. Era seu esconderijo. Paz! Tão facilmente conseguia exprimir o desejo comum a todos nós, seres humanos. Observava as pessoas ao redor, projetando-se nelas. Queria que agissem como um espelho. As pessoas a encaravam. Ou ela é que as estava encarando? Sentia uma náusea na boca do estômago. Ela aguardava que o semáforo permitisse seguir em frente. Havia estacado. A sensação que teve ao acordar ainda a incomodava. Clarice havia acordado com fome de simplicidade. Queria um mundo mais simples, menos burocrático. Queria entender o que estava ao seu redor, e desejava que a compreendessem da mesma forma. Queria não ter medo do desconhecido. Queria sentir segurança nas rotas estranhas. O sinal de pedestres continuava rubro. E ela queria tanto. Queria não mais querer. Queria livrar-se de todos os dogmas, de tudo que a acorrentava. Queria não se sentir presa às suas necessidades. Queria não ter necessidades. Queria não ser oprimida pela opinião dos outros. Queria não oprimir os outros com sua opinião. Queria ser mais leve. O tempo passava e cada segundo parecia uma eternidade. Não suportava mais a espera. Queria avançar. E queria não ter que se esconder. Não fugir dos outros. Desejava fincar raízes e voar, ao mesmo tempo. Queria não pensar. Calmos são os ignorantes. Os esclarecidos se tornam insubordináveis, refletiu ela. Aquilo tudo a perturbava. Mil idéias em fragmentos giravam em sua mente. Sentia-se enfraquecida. Tudo aquilo a esgotava. Suas forças iam escorrendo para fora de si, enquanto pensamentos sem razão a completavam. Talvez tudo fosse desabar. E quem iria reconstruir? E como? Era vertigem o que estava sentindo? Agradeceu por ainda ter sensações. Ainda era humana. Será que chegaria em casa? O caminho era longo. Pensou, em frações de segundo, em milhares de desgraças que poderiam lhe ocorrer em seu percurso. Era perigoso viver. A conclusão a fez parar de respirar. O sinal mostrava-se verde. Esperança. Era o que ela pensava. Lembrou-se de respirar. Profundamente. Clarice atravessou a rua. Talvez fosse uma busca perdida. Desperdício de tempo. No entanto, não bastava o desejo, o anseio. Precisava agir. E assim o fez. Avançou.

sábado, 26 de setembro de 2009

Diálogo

Porque você ta rindo de mim? Não vê que esse riso é pra esconder o desânimo. Não percebe que atrás da piada mora a tristeza. Não entende que o julgamento é pra fingir sabedoria. Não pressente, bem lá no fundo, que teu fim também se aproxima?

Talvez eu veja graça nesses seus sentimentos tão tolos. Talvez eu apenas queira me iludir sozinho, me perder por um momento. Você nunca quis ficar sozinha? Nunca riu para esconder a tristeza? Deve achar que é perfeita. O fim? Que venha o fim, não me importo. Agora me diga, com o que você se importa realmente?

Eu? E o que você sabe da vida? Do fim? Da paz? [...]